Fernanda Ciolfi on a veranda in Viçosa, Minas Gerais, with mountains

Paulista de Certidão, Mineira de Coração

April 27, 202612 min read

Trajetória

Paulista de certidão, mineira de coração

Nasci em São Paulo, cresci ouvindo italiano em casa e descobri em Minas o jeito de cuidar que carrego até hoje. A história de duas terras que viraram uma só mulher.

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03 de Maio, 2026 · 5 min de leitura · por Fernanda Ciolfi


Toda mulher carrega muitas terras dentro.

Às vezes a gente acha que é só do bairro onde nasceu, do CEP que aparece na certidão, da cidade que aprendemos a responder quando alguém pergunta “você é de onde?”. Mas, quanto mais eu caminho, mais eu percebo que a resposta verdadeira é bem mais comprida, cheia de cheiros, sotaques e mesas de domingo.

A minha história começa em São Paulo. Em uma família grande, italiana, de mesa cheia no domingo, frase em italiano antes do café, cheiro de molho cozinhando lento na cozinha. Eu cresci ouvindo “andiamo, andiamo” antes de qualquer saída e “mangia, mangia” em qualquer chegada. Era sempre alguém cortando pão, alguém mexendo panela, alguém rindo alto na sala. Caos amoroso, barulho de talher, abraço apertado na porta da cozinha.

São Paulo me deu esse começo acelerado: trânsito, pressa, horário, lista de tarefas. Mas também me deu o primeiro aprendizado de pertencimento: eu fazia parte de um clã. De uma família que gesticulava junto, que discutia falando alto, que usava a comida como forma de dizer “eu te amo” sem precisar usar essas palavras. Ali eu aprendi que cuidar é servir um prato fumegante, é perguntar se quer repetir, é mandar levar um pote de comida pra casa “pra não ter trabalho amanhã”.

Mas, curiosamente, a terra que me ensinou a cuidar de um jeito mais silencioso, atento e profundo não foi essa. A parte da minha trajetória que virou chave, que mudou meu olhar de mulher, de veterinária e de gente, começou quando eu fiz as malas e desci a serra em direção a Minas Gerais.


“Paulista de certidão, mineira de coração. Mulher de verdade carrega muitas terras dentro.”

Foi Minas que me adotou

Quando eu fui para Viçosa estudar Medicina Veterinária na UFV, eu tinha um plano bem claro na cabeça: ficaria os anos da faculdade, me formaria, voltaria para São Paulo e tocaria a vida por lá. Era como se Minas fosse só um capítulo, um intervalo entre a menina da capital e a profissional que eu imaginava ser no futuro. Uma pausa estratégica, não um novo endereço de alma.

Mas Minas tem dessas coisas. Ela não chega fazendo barulho. Ela vai se aproximando devagar, com o cheiro do café passado na hora, com o pão quentinho embrulhado num guardanapo simples, com uma prosa jogada no portão. Quando você percebe, já está adotada, com o coração falando “uai” antes da boca se dar conta.

Foi em Viçosa que eu vivi muitas primeiras vezes. Foi a primeira vez que alguém me chamou pra tomar café em casa sem ter motivo nenhum, sem ser aniversário, sem ser data especial, sem “programação”. Só porque sim. Porque o bolo tinha saído do forno e seria um desperdício comer sozinha. Foi a primeira vez que vi gente desconhecida cumprimentando na rua como se fosse velho amigo. Um “bom dia” que vinha acompanhado de olhar nos olhos, de um sorriso que demorava meio segundo a mais do que o normal, de uma curiosidade genuína sobre como você estava.

Também foi a primeira vez que entendi que existia outro jeito de receber, de ouvir, de cuidar. Em São Paulo, a casa cheia do domingo era planejada: lista de compras, horário do almoço, quem leva a sobremesa. Em Minas, eu descobri a visita que simplesmente aparece com um queijo embrulhado num pano de prato, a cadeira puxada de última hora, o café coado na hora pra mais uma xícara que chegou sem avisar. E ninguém se incomoda. Pelo contrário: parece que a casa fica mais completa quando chega alguém de surpresa.

A UFV também teve um papel gigante nessa adoção. O campus, com seus gramados, árvores e bichos, me lembrava todos os dias por que eu tinha escolhido a veterinária. Mas era o entorno – as repúblicas, as padarias, as ladeiras de Viçosa – que me lembrava todos os dias por quem eu queria ser uma profissional melhor: pelas pessoas simples, pelos produtores, pelas famílias que me chamavam de “minha filha” mesmo sem saber meu sobrenome.


Mosaico com família italiana, UFV em Viçosa e presente em Minas Gerais

Três terras que se encontram: raízes italianas, formação em Viçosa e a mulher que Minas ajudou a lapidar.


O que Minas me ensinou que SP não tinha ensinado

Em São Paulo eu aprendi a correr. A olhar o relógio, a aproveitar cada minuto do dia, a ser eficiente, prática, direta. A cidade grande nos ensina a sobreviver no meio do barulho: metrô cheio, agenda apertada, trânsito que parece nunca acabar. Eu aprendi a ser objetiva, a ir direto ao ponto, a resolver problemas com rapidez. São Paulo me deu ritmo, foco, disciplina. Me ensinou a levantar cedo, a estudar muito, a não ter medo de trabalhar duro pelo que eu queria.

Em Minas, eu aprendi outra coisa: a parar. A escutar a história inteira da pessoa antes de responder. A não interromper no meio da frase. A entender que café não é só café — é um pretexto pra estar perto, pra perguntar de verdade “como você está?” e ficar ali o tempo que for preciso pra ouvir a resposta, mesmo que ela venha cheia de pausas e silêncios. Em Minas, silêncio também é conversa. Pausa também é cuidado.

Aprendi que cuidar é detalhe. É lembrar do nome do filho da vizinha. É saber qual é o pão preferido da senhora da esquina. É perguntar como foi o dia da moça do mercado, não por educação automática, mas porque você realmente quer saber. É reparar que alguém está cansado antes da pessoa dizer. É notar o olhar meio baixo, o suspiro mais fundo, a xícara de café que fica cheia demais na mesa. Cuidar, ali, tem muito mais a ver com perceber do que com falar.

Esse jeito mineiro de prestar atenção mudou meu olhar sobre medicina, sobre veterinária, sobre vida. Como veterinária, eu entendi que o animal nunca vem sozinho: ele chega com uma família, com uma história, com uma dor que muitas vezes não é só física. O cachorro que não come pode estar sentindo a ausência de alguém da casa. O gato agressivo pode ser reflexo de um ambiente tenso. Em Minas, eu aprendi a ouvir também o que não é dito, a enxergar o contexto, a cuidar da relação e não só do sintoma.

Como mulher, eu aprendi a desacelerar por dentro, mesmo quando por fora a agenda continuava cheia. Aprendi a valorizar o “vem cá, senta um tiquim” que resolve metade das angústias antes mesmo da conversa começar. Aprendi que tem dia que o melhor remédio é um café coado na hora, um pão de queijo quentinho e alguém disposto a ouvir sem pressa, sem julgamento, sem conselho pronto. E que isso, no fundo, também é saúde: emocional, mental, relacional.

“Não dá pra cuidar bem de quem você não escuta direito. Minas me ensinou a escutar.”

Foi aí que a minha trajetória começou a se misturar de um jeito bonito: a objetividade paulista encontrou a delicadeza mineira. O “vamos resolver” de São Paulo se uniu ao “me conta com calma” de Minas. A menina da família italiana barulhenta aprendeu a fazer silêncio pra acolher a dor do outro. E, sem perceber, essa mistura foi virando um jeito muito particular de ser mulher, de ser veterinária, de ser comunicadora.


Mulher de verdade carrega muitas terras dentro

Quando eu digo que sou paulista de certidão e mineira de coração, não é só uma frase bonita pra biografia. É a forma mais simples que encontrei de explicar esse mapa interno que toda mulher carrega. Porque, quanto mais eu converso com mulheres, mais eu percebo que nenhuma de nós é feita de uma terra só. A gente é feita de várias camadas de chão, de histórias, de pessoas que passaram pela nossa vida e deixaram um pouco de si.

Mulher de verdade carrega a mãe que veio antes, a avó que veio antes ainda, o lugar onde nasceu, o lugar que escolheu, a língua de casa, a língua que foi aprendendo, as receitas que herdou, as que inventou. Carrega o quintal da infância, a rua onde brincou, o primeiro ônibus que pegou sozinha, o cheiro do feijão de sábado, o medo que sentiu na primeira mudança, o alívio de encontrar um abraço conhecido em terra estranha. Tudo isso vai virando tijolinho de quem a gente é.

Eu sou esse caldo. Caldo italiano cozido em panela mineira, temperado pelo Estado que me adotou. Sou paulista de certidão, com lembranças de prédio, de chuva no asfalto, de sirene no fundo. Sou mineira de coração, com saudade de fogão a lenha, de pão de queijo que não tem medida certa, de conversa na calçada. Sou neta de italianos que falavam alto e cozinhavam melhor ainda. Sou veterinária formada por Minas, que aprendeu a olhar pro animal e pro dono com o mesmo cuidado. Sou apresentadora do Momento Mulher, feito com chá nas pausas e fé na hora difícil.


Por que o canal se chama Momento Mulher

Muita gente me pergunta por que o canal se chama Momento Mulher. E, no fundo, a resposta está escondida nessa história toda que eu acabei de te contar. O Momento Mulher nasceu justamente dessa mistura de terras que eu carrego: da menina paulista acelerada, da neta de italianos emotiva, da veterinária mineira que aprendeu a escutar, da mulher que tenta equilibrar ciência, fé, rotina, cuidado com os outros e cuidado consigo mesma.

Eu queria um espaço onde a gente pudesse falar de saúde única – essa ideia linda de que a saúde dos animais, das pessoas e do ambiente estão conectadas – de um jeito que a sua avó entendesse. Queria um lugar onde a informação viesse acompanhada de acolhimento, onde o conteúdo técnico tivesse sempre uma xícara de café ao lado, onde a mulher que assiste se sentisse sentada à mesa comigo, e não numa sala de aula fria e distante.

O nome Momento Mulher veio dessa vontade de criar pequenas pausas de cuidado no meio do dia. Um momento só seu, no meio da correria, pra respirar fundo, aprender algo novo, lembrar que você não está sozinha, que tem outras mulheres tentando dar conta de tudo e, ainda assim, se permitindo ser humanas, falhas, sensíveis. Um momento em que a ciência encontra a cozinha, em que a veterinária encontra a dona de casa, em que a profissional encontra a mãe, a filha, a amiga.

Por trás de cada episódio, de cada texto, tem essa minha trajetória inteira soprando no meu ouvido: a disciplina de São Paulo, o afeto da família italiana, a escuta de Minas, a responsabilidade da veterinária, a fé da mulher que dobra o joelho quando as coisas apertam. É por isso que eu sempre digo que o canal não é só sobre mim. Ele é sobre todas as mulheres que, assim como eu, carregam muitas terras dentro e, mesmo assim, às vezes se sentem perdidas, sem saber de onde realmente são.


Paulista de certidão, mineira de coração: muito além de um rótulo

Dizer que sou paulista de certidão e mineira de coração é, pra mim, uma forma carinhosa de honrar as duas terras que me fizeram quem eu sou. São Paulo me deu as asas. Minas, as raízes. Uma me ensinou a sonhar grande, a não ter medo de cidade grande, de responsabilidade, de estudo puxado. A outra me ensinou a pousar, a olhar pro lado, a lembrar que ninguém faz nada sozinha, que a vida não é só meta batida, é também bolo repartido, é também lágrima enxugada na cozinha.

Com o tempo, eu percebi que esse rótulo dizia menos sobre geografia e mais sobre identidade. Não é só sobre mapa, é sobre afeto. Não é só sobre onde eu nasci, é sobre onde meu coração aprendeu a descansar. Não é só sobre sotaque, é sobre o jeito de olhar pro mundo. E, quando eu olho pra trás, vejo que cada escolha da minha trajetória foi, de algum jeito, um diálogo entre essas duas Fernandas: a que anda rápido e a que senta pra ouvir; a que faz planejamento e a que aceita o improviso; a que fala alto e a que aprende a sussurrar consolo.


E você, é de onde?

Agora eu quero te fazer a mesma pergunta que volta e meia me faço: você é de onde? Mas não vale responder só com a cidade da certidão. Quero saber também da terra que te escolheu, das pessoas que te criaram, dos sotaques que te formaram, das cozinhas onde você aprendeu o que é cuidado, das ruas onde você brincou, das casas onde você foi recebida como se já fosse da família.

Você é do colo da sua mãe, da fé da sua avó, da rigidez do seu pai, da liberdade da sua tia, do cheiro de chuva na terra do interior, do barulho da cidade grande, do silêncio da roça, do mar que você só vê nas férias, da serra que você enxerga da janela todos os dias. Você é da escola onde estudou, da faculdade que te desafiou, do primeiro trabalho que te deu medo e orgulho ao mesmo tempo. Você é da igreja, da praça, do barzinho, do quintal. Você é da terra que te feriu e da terra que te curou.

Me conta nos comentários. Eu amo saber de onde vêm as mulheres que estão aqui comigo nesse cantinho. Amo imaginar os sotaques, as cozinhas, as estradas, as histórias por trás de cada nome que aparece aqui. Porque, no fundo, quando você compartilha um pouco da sua trajetória, você me lembra que esse espaço é feito de muitas terras, muitos mapas, muitos corações. E é isso que deixa tudo mais bonito, mais verdadeiro, mais nosso.

Inspire-se. Fica com Deus.


Fernanda caminhando em rua histórica de cidade mineira ao pôr do sol

Entre São Paulo e Minas, encontrei o caminho onde minha história faz sentido.


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Sobre a autora

Fernanda Ciolfi é veterinária formada pela UFV, com mestrado e MBA, e apresentadora do Momento Mulher. Paulista de certidão, mineira de coração, escreve sobre saúde única, mulher e a vida que cabe no meio de tudo isso.

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